Quanto cobrar por uma toalha sob medida

A maioria das costureiras que eu conheço trabalha bem e ganha pouco. Não é falta de talento, é conta errada. Vou te mostrar a minha, com número fechado.

Mãos guiando tecido de linho sob a agulha de uma máquina de costura

Já ouvi muitas vezes a mesma frase: eu cobrei o tecido mais um pouquinho. Esse pouquinho é o problema. Ele não paga o seu tempo, não paga a luz, não paga a agulha que quebrou, e no fim do mês você trabalhou muito e não sobrou nada.

Preço não é chute nem é comparação com a vizinha. É conta. E a conta tem quatro partes.

As quatro partes do preço

  1. Material: tecido, linha, etiqueta, embalagem
  2. Seu tempo: as horas que a peça leva, multiplicadas pelo que a sua hora vale
  3. Custo indireto: luz, desgaste da máquina, agulha, transporte até o fornecedor
  4. Margem: o lucro. É o que faz o negócio crescer em vez de só sobreviver

Quem esquece a parte 2 trabalha de graça. Quem esquece a 4 nunca compra máquina nova.

Vamos fazer junto: toalha de 1,90 × 1,40 m

Peguei o caso mais comum do meu dia a dia: mesa de 1,40 × 0,90 m com caimento de 25 cm. Dá uma toalha de 1,90 × 1,40 m.

Parte 1: material

Preciso de 2,00 m de tecido, contando os 10 cm de barra. Vou usar um misto de linho com algodão a R$ 42 o metro.

ItemCálculoValor
Tecido2,00 m × R$ 42R$ 84,00
Linhaconsumo da peçaR$ 4,00
Etiqueta e embalagempor peçaR$ 6,00
Total de materialR$ 94,00

Parte 2: o seu tempo

Essa é a parte que dói, porque exige honestidade. Cronometra de verdade uma vez, do começo ao fim, e usa esse número. Na minha média, uma toalha desse tamanho leva:

  • Pré-lavagem e secagem: 20 minutos de trabalho efetivo
  • Corte no fio e esquadro: 25 minutos
  • Barra e cantos nos quatro lados: 1 hora
  • Ferro e conferência final: 25 minutos
  • Dobra e embalagem: 10 minutos

2 horas e 20 minutos, que eu arredondo para 2,5 horas porque sempre acontece alguma coisa.

Agora, quanto vale a sua hora? Não pergunta ao mercado, decide você. Um jeito honesto de chegar nesse número: pensa quanto você quer ganhar por mês e divide pelas horas que você consegue de fato costurar.

Exemplo de valor hora

Quero tirar R$ 3.000 por mês. Consigo costurar 6 horas por dia, 20 dias por mês, então 120 horas. Mas nem toda hora é produtiva: tem atendimento, compra de tecido, foto, postagem. Considera 70% produtivas, ou 84 horas.

R$ 3.000 ÷ 84 = R$ 36 por hora. Vou arredondar para R$ 35.

Então: 2,5 horas × R$ 35 = R$ 87,50 de mão de obra.

Parte 3: custo indireto

Luz, água da pré-lavagem, agulha, óleo da máquina, desgaste, deslocamento até o fornecedor. Ninguém consegue medir isso peça por peça, então usa um percentual. Eu uso 10% sobre material mais mão de obra.

10% de (R$ 94 + R$ 87,50) = R$ 18,15.

O custo total

ParteValor
MaterialR$ 94,00
Mão de obraR$ 87,50
Custo indiretoR$ 18,15
Custo total da peçaR$ 199,65

Parte 4: a margem

Custo não é preço. Se você vender a R$ 200, você empatou: pagou o tecido, pagou o seu tempo e não sobrou nada pro negócio. Nada pra comprar tecido do próximo pedido, nada pra trocar a máquina, nada pra imprevisto.

Em trabalho manual sob medida eu uso multiplicador entre 2 e 2,4 sobre o custo total. Peça exclusiva, feita na medida, com atendimento pessoal, sustenta essa margem.

MultiplicadorPreçoQuando usar
1,8×R$ 359Cliente que já compra sempre, ou pedido de várias peças
2,0×R$ 399Preço base do dia a dia
2,2×R$ 439Tecido nobre, acabamento especial, prazo apertado
2,4×R$ 479Peça exclusiva, bordado, urgência real

Ou seja: essa toalha vale entre R$ 400 e R$ 450. E não, não é caro. É uma peça feita na medida da mesa daquela pessoa, que não existe pronta em loja nenhuma.

Guardanapo de linho amarrado com sisal e cutelaria dourada sobre prato branco
Conjunto completo vende melhor que peça solta. O guardanapo custa pouco pra fazer e sobe bastante o valor do pedido.

Cinco erros de precificação que eu já cometi

1. Cobrar o tecido mais um pouquinho

Já falei, mas vale repetir porque é o mais comum. Se você cobra R$ 150 numa peça que custa R$ 94 de material e leva 2,5 horas, você está ganhando R$ 22 por hora e pagando a luz do seu bolso.

2. Dar desconto sem tirar nada

Se a cliente pede desconto, tira alguma coisa em troca: prazo maior, tecido mais simples, acabamento mais direto. Desconto puro sai do seu lucro, e o seu lucro já é a menor parte da conta.

3. Não cobrar pela urgência

Peça pra depois de amanhã significa furar a fila, virar noite ou atrasar outra cliente. Isso tem preço. Eu cobro de 20% a 30% a mais e aviso antes, sem constrangimento.

4. Esquecer o frete e a taxa

Frete é por fora e vai calculado pelo CEP. E se você recebe por cartão ou link de pagamento, a taxa da maquininha sai do seu preço. Confere a taxa real da sua e embute.

5. Comparar preço com produto de fábrica

Toalha de loja é feita em escala, em tamanho padrão, sem ninguém medir mesa nenhuma. Você não vende o mesmo produto. Quando a cliente compara, a resposta é simples e honesta: aquela ali não serve na sua mesa, e é por isso que você está falando comigo.

Como falar do preço sem travar

Manda o valor com o que está incluído, em uma mensagem só, e não pede desculpa pelo preço. Algo assim:

Para a sua mesa de 1,40 × 0,90, a toalha sai 1,90 × 1,40 com caimento de 25 cm. Em misto de linho fica R$ 420, pronta em 8 dias, frete por fora.

Curto, claro e sem hesitação. Quem valoriza trabalho feito à mão entende. Quem só quer o mais barato não era sua cliente.

Resumo pra guardar

Material, mais tempo vezes valor hora, mais 10% de indireto. Esse é o custo. Multiplica por 2 a 2,4 e você tem o preço. Cronometra uma peça de verdade antes de confiar na sua estimativa.

No curso tem um módulo inteiro de preço e venda, com planilha pra você fazer essa conta sozinha em qualquer peça.

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